Mudanças te fazem pensar muito, talvez até redefinir alguns objetivos, alguns traços. Mudanças mandam que mexas nas coisas, revires as entranhas do passado, tires o pó das fotos velhas que insistes em guardar, mas que não ousas olhar de frente. Tudo encaixotado, cuidadosamente colocado fora da vista.
Pois hoje eu mexi em umas caixas de papelão. Caixas de Ensino Médio do CEFET, cheias de bilhetes e cartas, recortes, material de aula, textos e provas. Espirrei muito, matei pequenas aranhas e consegui olhar de frente para quem eu era e para quem eu quero me tornar. Eu tinha um montão de amigos, um montão de faltas e um montão de notas boas e ruins. Eu me vi andando por aquele prédio querido, encontrando as pessoas como elas eram então. Uma vontade de rir e de chorar veio, e eu até lacrimejei – mas foi por causa do pó mesmo – até que eu percebi: Finalmente fiz as pazes comigo mesma, com as escolhas que eu fiz de lá pra cá e com a imagem parada que ainda existe, que vive naquela escola com aquelas pessoas, falando aquelas coisas e, apesar de ser ótima em Português sem esforço nenhum, querendo fazer faculdade de Filosofia e ser professora.
Nessa quantidade fenomenal de papel, eu vi que nunca sofri tanto por um fim de relacionamento como sofri com o fim dos 15 dias que passei com o Everton. Vi que, no meio das idealizações românticas do clichê “mestre-pupilo” que nos unia, ele nunca foi uma má pessoa e que eu, leonina, tenho muitos problemas para enxergar quando as coisas terminam, não sei deixar acabar. Eu me quebrei em muitos pedacinhos por causa do Sr. Carpes e nunca vou encontrar algumas partes, irremediavelmente danificadas. A sorte é que esses pedaços eram ruins e eu me dou melhor sem eles.
Foi assim também com o Victor, achei um monte de coisas que escrevi logo que o nosso namoro acabou. Tive dificuldades de desvencilhar sua imagem de namorado da imagem de amigo que se seguiu, mesmo que não o amasse mais com as forças de uma mocinha apaixonada, mesmo que quisesse bater nele às vezes. Mesmo que não quisesse mais beijá-lo, acho que ainda queria segurar-lhe a mão e ser a leonina da vida dele, sempre a primeira em sua mente. Tolices.
Encontrei uma carta, a fatídica carta, do Moisés e vejo minhas bobagens. Se na época eu preferi umas certas pessoas a ele, hoje essas certas pessoas andam por aí e ele, bem, ele vai me entregar ao Heitor no dia do casamento. O Moisés é uma das pessoas que mais me entendem, nós temos uma ligação honorovística e isso ficou, não aquela carta.
Na caixa eu achei muitas coisas inúteis que foram pro lixo, mas encontrei dois tesouros sentimentais que vou guardar sempre: os roteiros de Joana d’Arc e Rei Arthur. Aqueles dias foram dois dos dias mais felizes que já tive e é sempre bom lembrar as falas.
Encontrei umas fotos, uns cartões, umas provas horrorosas de química… Encontrei minha obstinação, meus preconceitos, minhas vergonhas.
Como eu posso ter mudado tanto e ter continuado a mesma?
Agora as caixas estão quase vazias, já mandei um bocado de lembranças rasgadas para a lixeira. Agora eu me olho no espelho e vejo o que eu sabia que veria, mesmo intuitivamente. Vejo os mesmos olhos, as mesmas sardas, as mesmas covinhas. Mas agora, depois de todo o preto que eu usei nos olhos, posso enxergar melhor. E eu gosto do que vejo.
Quando penso que vou deixar esse apartamento, sinto um turbilhão dentro do meu estômago. Quero ir logo, quero ir… Mas preciso ter certeza de que nada vai ficar pra trás.
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